CRA é a sigla utilizada para Certificado de Recebíveis do Agronegócio, criado em 2004. Teve sua origem com a CPR, em 1994. Depois da CPR foram desenvolvidos os títulos do agronegócio, e um deles é o CRA. Hoje, ele é muito comum no mercado de capitais, e muitas empresas estão utilizando esta ferramenta para se financiar com recursos alternativos. O CRA nada mais é que uma securitização de recebíveis. Quando se emite o CRA, empacotam-se vários recebíveis, e estes por sua vez, são vendidos para vários investidores no mercado de capitais.

Cada vez mais, as empresas estão acessando esse mercado. Além disso, com a diminuição de recursos disponíveis para o meio rural pelo governo, alternativas de funding se tornam ainda mais difundidas. Entretanto, é importante dizer que juntos, o governo, o MAPA e o Ministério da economia estão dando incentivos para o mercado de capitais financiar o setor do agronegócio como um todo. Recentemente, com a aprovação da nova lei do agro, observou-se uma melhoria nos títulos do agro, justamente para dar mais transparência e mais segurança para os investidores.

Todas as empresas podem emitir um CRA?

Todas as empresas que fazem parte da cadeia do agronegócio podem emitir um CRA: desde o pequeno a médio produtor, revendas e cooperativas. O interessante é reforçar que até as pequenas empresas e produtores podem acessar o mercado de capitais via CRA. As empresas da cadeia do agronegócio podem ser divididas em 3 tipos:

  1. “Antes da porteira” – trata-se de empresas que fornecem os insumos, desde agroquímicos, fertilizantes, máquinas agrícolas;
  2. “Dentro da porteira” – onde os próprios produtores e cooperativas podem emitir
  3. “Depois da porteira” – empresas que compram produtos dos produtores e cooperativas, como por exemplo a BRF que acabou de fazer uma emissão grande.

É necessário algum tipo de certificado?

Não. Basicamente, o investidor analisa o crédito do produtor, o risco e a garantia. Acesso ao CRA depende dessas variáveis. Se falamos em um pool de produtores, ou um produtor grande, a governança também é levada em consideração na análise.

Quais são os tipos de operações de CRA, existente no mercado? Há alguma melhor para determinados tipos de empresa?

Há dois tipos de operações de CRA:

1° CRA com risco corporativo, quando o investidor aplicada recursos no CRA Corporativo, o risco para o investidor é a capacidade da empresa de repagar. É muito comum para esse tido de CRA, uma empresa emitir uma debenture para a securitizadora como lastro do CRA. Um produtor grande também pode emitir uma CPR financeira diretamente com securitizadora como sendo lastro de um CRA. O investidor analisará a capacidade de pagamento desse empréstimo e eventuais garantias que possam ser dadas.

2° CRA com risco pulverizado, onde uma empresa de insumos, revenda ou cooperativa, que financia e concede prazo para os produtores para pagar com prazo safra contra uma emissão de uma duplicata ou até uma CPR financeira. Essa empresa de insumo ou revenda faz a cessão desses recebíveis, e nesse caso, o investidor corre risco da performance daquela carteira de recebíveis de vários produtores. O que o investidor vai analisar nessa situação é como performou historicamente essa carteira de recebíveis. Se ela performa bem, se tem baixa inadimplência, baixo desconto e baixa devolução de produtos, além de analisar também a política de crédito daquela empresa. Em alguns CRAs pulverizados, são feitas operações com seguro de crédito. Essa estratégia dá mais segurança para o investidor, e se no final houver inadimplência maior na carteira, a seguradora de crédito garante a remuneração para o investidor no CRA.

Depois do Banco do Brasil, o CRA é uma solução no AFRP?

O Banco do Brasil veio fomentando a agricultura através do crédito rural, e hoje, observa-se que o agronegócio vai ter que crescer mais e buscar novas fontes, já que o recurso do governo é limitado. Então, existem incentivos por parte do governo para que cada vez mais as empresas acessem o mercado de capitais, que chegou com tudo para complementar a linha do crédito rural.

Quais são as garantias geralmente usadas para o produtor de café?

Normalmente, o que se faz é o penhor da lavoura, e em alguns casos dependendo do risco do produtor, penhora-se algum imóvel para garantia, ou a cessão de contrato como uma trading. Mas, quando se trata de produtor de café, sabe-se que o setor de café, bem como seus produtores e áreas, são muito pequenos. Por isso, normalmente, para fazer uma operação de CRA, o ideal seria acima de R$20 a 30 milhões. Neste caso sugere-se fazer uma operação com uma cooperativa, revenda ou empresa de insumos envolvida. Alguma empresa que já seja credora desses pequenos produtos, assim é possível fazer a cessão dessa carteira.

Qual o primeiro passo para uma pessoa física investir? Existe um limite mínimo, é com um agente financeiro?

A maioria dos investidores do CRA são pessoa físicas. IR é isento para os investidores. Há 3 tipos de ofertas para os investidores do mercado de capitais:

  1. Investidor de varejo: pessoas comuns que podem investir a partir de R$1.000 seguindo algumas regras.
  2. Investidor qualificado: pessoas que tem mais de R$1 milhão em investimentos.
  3. Investidor profissional: com mais de R$10 milhões em investimentos.

Dependendo do risco da estrutura e do tipo de distribuição, direciona-se o CRA para o perfil do investidor seguindo a regra da CVM. Sobre o agente financeiro, ele é distribuído por um banco ou por uma corretora.

É rentável investir em CRA com a taxa Selic no patamar atual?

Sim. Hoje, a opção de investimento no tesouro Selic rende 2% ao ano. Em algumas operações de CRA, dependendo do risco, consegue-se uma porcentagem um pouco maior, chegando a IPCA + 5%, CDI +4%, CDI +5%

Qual a liquidez de resgate da aplicação comparado com LCA?

Alguns CRAs podem não ter tanta liquidez, mas esse fato depende do mercado secundário. Quando se fecha uma LCA, o procedimento é muito mais fácil comparado ao CRA, que muitas vezes não tem um mercado secundário. É importante avaliar caso a caso.

O que é o CRA verde e como ele funciona?

O CRA verde é um mercado novo em ascensão conhecido lá fora como Green Bonds, onde se tem cada vez mais empresas captando recursos gerando impacto socioambiental. Para o Brasil, o CRA verde tem se tornado uma tendência. Os investidores e fundos estão começando a buscar por isso, mas o mercado aqui no Brasil ainda é muito pequeno, porém tem crescido muito. Hoje, vemos fundos investindo em papeis com foco no socioambiental. Essas empresas no Brasil que emitem um título verde, hoje é um algo a mais se comparando com as outras empresas. No médio prazo, green bonds serão uma obrigação a todas as empresas do setor.

Cada vez mais as empresas do agronegocio devem se preocupar com três pilares: 1- preocupação social; 2- preocupação ambiental (planeta); 3- preocupação do lucro. Estes 3 pilares sempre vão ter que andar juntos. O CRA verde, nada mais é, que a destinação do recurso utilizado para melhorar as benfeitorias, e ter um impacto sócio ambiental mais positivo.

As sessões de duplicatas que os fornecedores fazem muito hoje em dia junto com os bancos, são fomentadores por CRA e FIDC?

Hoje é muito comum nas operações de CRA pulverizados utilizar essas duplicatas como lastro, onde a revenda só pode ceder duplicatas de produtores, não podendo ser qualquer duplicata. O lastro do CRA é preciso estar linkado com algum produtor ou uma cooperativa.

Como estão os investidores internacionais? Como eles têm olhado para a questão da sustentabilidade, eles vão a fundo mesmo pesquisar?

O mercado internacional tem muitos fundos de impacto socioambiental, e para eles investirem tem que ter uma certificadora que valida, como a CBI. Eles possuem várias outras empresas que emitem a opinião sobre aquele título: se é realmente certificado, se é verde, entre outros. As taxas são adequadas diante das certificações: taxa menor para quem acompanha os critérios sócio ambientais, mas, taxa mais elevada para quem não conseguiu entregar o que foi prometido.

Seria importante o agro vir para o mercado de capitais e depois o financiamento verde?

Muito se tem discutido sobre essa questão, mas acredita-se que as duas coisas podem acontecer simultaneamente, pois um é complemento do outro. O agro já veio com mais de 45 bilhões em CRAs emitidos, com o potencial de chegar em 60 bilhões. Dessa forma, nota-se que o CRA verde já é um complemento que já está em constante crescimento.

Quem assume o risco da carteira de crédito oferecida como LASTRO?

São os próprios investidores que investem nos papeis. Quando se faz um CRA pulverizado, divide-se a operação em dois CRAs: o “sênior” e o “subordinado” – como se fala na linguagem do mercado. O Sênior possui senioridade, e quem investir nele vai levar a vantagem e receber primeiro o seu dinheiro de volta. Já o CRA subordinado, vai receber por último. Portanto, o investidor do CRA subordinado, assume os riscos das primeiras perdas, e normalmente quem assume esse risco é a própria empresa que conhece e cede a carteira.

A cooperativa faria o papel de lançar o CRA usando como lastro recebíveis dos produtores cooperados?

Sim, para cooperativas existem dois tipos de operação: o CRA com risco corporativo, onde a própria cooperativa pode emitir uma CPR financeira, tomando o dinheiro para si, investindo em insumos, máquinas ou outra benfeitoria. E, o CRA com risco pulverizado, onde a cooperativa vende seus insumos contra duplicata ou CPRs e faz a cessão desses recebíveis para securitizadora onde esses recebíveis passam a ser da securitizadora e não mais da cooperativa.

Artigo extraído da Live com Renato Barros Frascino em 06/11/2020.