Sabe-se que nos mercados sustentáveis há preocupação especial com o meio ambiente, com o lado social e com a governança. Usa-se a sigla ASG (ambiente, social e governança). Os consumidores, por sua vez, estão cada vez mais interessados em saber o reflexo socioambiental dos meios utilizados para produzir aquilo que irão comprar.

  1. O que são os títulos verdes e quais são as vantagens desse mercado?

Investidores que fazem a compra de títulos de empresas que tem o fundamento de sustentabilidade no três pilares ASG.

Pedágio a ser pago:

Certificação própria:Necessidade de o produtor se submeter ao processo, para ter maior visibilidade entre aos investidores. Mostrando assim que tem um modo sustentável, garantindo segurança para o investidorVantagens:

  1. Necessidade de certificação;
  2. Crédito mais favorável para os produtores: um crédito mais previsível. O balanço da produção fica mais eficiente, produzindo mais com menos investimento (menor quantidade de insumo e racionalizando mão de obra);
  3. Revisão na gestão – cada vez mais um pré-requisito;
  4. Maior eficiência no uso dos insumos e mão de obra;

 

  1. Como está o Brasil neste mercado atualmente? Há potencial para crescimento aqui no Brasil?

Em 2019, o Brasil emitiu meio porcento (0,5%) dos green bonds no mundo (US$1,5 bi vs US$258 bi), apesar de representar mais de 2% do PIB mundial. Fazendo as contas, nada absurdo em se pensar no Brasil multiplicando essas emissões por 4, dado tamanho de sua economia. Porém, certamente será algo bem maior, porque somos uma potência agroambiental, ou seja, temos uma quantidade de ativos ambientais enorme ainda sem precificação. Além disso, nossa sociedade cada vez mais entende e incorpora os conceitos da sustentabilidade em suas rotinas, além de levar o assunto a sério – Embrapa, Renovabio-CBIO, patrocínio institucional dos ministérios, legislação de ponta (código florestal)…

 

  1. Que oportunidades se abrem para o agronegócio brasileiro e para os produtores rurais brasileiros?

Ano passado emitimos green bonds na ordem de USD1,5 bilhões, considerando todos os setores que assim o podem fazer –  energia, logística, papel e celulose…. O agro, desde o início desses mercados, pouco emitiu. Vejamos o potencial financeiro disso: apenas a necessidade de capital de giro de nossa agropecuária gira em torno de US$100 bi por ano.. Isso, sem se falar das necessidades de capital para investimento e todo capital para suportar as atividades antes e depois da porteira como produção e distribuição de insumos, transporte, armazenamento, industrialização e comercialização dos produtos agropecuários. Do ponto de vista ambiental as oportunidades também são enormes. O Brasil hoje usa 8% do território para lavoura, aproximadamente 60 milhões de ha e sua produtividade pode crescer muito. Sobre a pecuária, as pastagens do país ocupam cerca de 170 milhões de ha. Temos capacidade tecnológica de sustentar os atuais níveis de produção em uma pequena fração dessa área. Fica claro que a expansão de nossas lavouras ocupará área de pastagens desocupadas o que proporcionará a multiplicação de sua produção sem desmatamento algum. Além disso, nossa produção é inerentemente sustentável. Temos 2 safras que nossa natureza e nosso clima nos deram e, com a tecnologia sustentável, conseguimos chegar a 3 por ano. Em suma, o Brasil tem espaço, água e clima, fontes renováveis de energia, capacitação técnica e vontade de racionalizar seus recursos naturais e universalizar nossa agricultura sustentável.

 

  1. Agora, o que é preciso fazer para nosso agro acessar tais mercados e o que o governo tem feito nesse sentido?

Assinamos um Memorando de Entendimento com a Climate Bonds Initiative (CBI), maior autoridade em finanças verdes no mundo. A partir daí estamos trabalhando numa certificação para agropecuária de ampla aplicabilidade e aceitação internacional, o que a CBI está providenciando. Agora precisamos trabalhar os três públicos fundamentais: investidores, produtores (emissores dos títulos) e certificadoras. Nosso foco imediato é o investidor, e, nesse sentido, no final de julho haverá uma “Live” com a CBI, detalhando o plano de investimento que eles elaboraram sobre nossa agropecuária sustentável, o qual visa explicá-la ao investidor estrangeiro e doméstico, encurtando a distância que há entre eles e nosso agro.

 

  1. Mas nossos mercados financeiros estão prontos para receber as finanças verdes? Temos os instrumentos financeiros e estrutura adequados?

Estamos, neste momento, solucionando os entraves do mercado de crédito privado para o agro. Já corrigimos boa parte de suas falhas com a lei 13.986. Hoje temos uma nova CPR, além de melhores CDCA e CRA. Precisamos ter mercados financeiros simples, transparentes e seguros juridicamente. E, além disso tudo, acrescentamos o lado verde nesses mercados e a CPR já pode ser emitida para conservação de florestas nativas, implantação de florestas, manejo de floresta nativa e plantada.

 

  1. E como fica o capital estrangeiro? Em que medida acessarão nossas finanças verdes do agro?

Nossos mercados são globais, pois nosso agro é global. Daí a necessidade dos títulos financeiros do agro poderem ser emitidos com variação cambial. O Brasil vem batendo recordes de produção anualmente, nossos excedentes vêm aumentando dramaticamente a cada ano e os mercados mundiais são seu destino Por isso, temos que desburocratizar o ingresso de recursos externos e acertar aspectos tributários, para não atrapalhar o trânsito de recursos internacionais, favorecendo, dessa forma, a inserção do nosso agro nos mercados globais por ser sua vocação.

 

  1. As finanças verdes chegarão à agricultura familiar também? E o cooperativismo, como ficará?

O aspecto social é fundamental e vai interessar o investidor doméstico e internacional. Vejamos nossa querida agricultura familiar onde, numa primeira vista há o problema da escala. Por outro lado, contudo, nosso cooperativismo (da produção agropecuária e do crédito) juntamente com as associações dos agricultores familiares (como CNA, Contag, Contraf, Confetraf, Conaf, CEAF) ajudarão muito. Temos trabalhados com essas entidades e levaremos as finanças sustentáveis a todos os produtores rurais, de todas as escalas.

 

  1. A pandemia complicou a implantação das finanças verdes do nosso agro? Como os green bonds ficarão após do Covid?

Mais promissores ainda! O mundo vai demandar cada vez mais segurança alimentar, que, por sua vez, está absolutamente vinculada à sustentabilidade no agro. Tomemos o exemplo das pandemias. Todas decorrem de zoonoses virais. Os protocolos de sustentabilidade já adotados no Brasil, por sua vez, preconizam o bem-estar animal, melhor o protegendo de zoonoses, diminuindo, consequentemente, o risco de surgimento de novas viroses prejudiciais à saúde humana como a Influenzas, Ebola, SARs, MERs, HIV, HNs e Covids. Então, o Brasil será indiscutivelmente peça-chave na mitigação de novas pandemias, pelas características de sua agricultura, inerentemente sustentável, como destacado acima.

 

  1. Quais os próximos passos e quando os produtores poderão acessar tais mercados?

Nosso foco primordial e imediato é o investidor. Mas, durante este ano, trabalharemos com certificadoras e produtores também, trazendo-os no mesmo passo e aproximando-os para, no ano que vem, fazermos eventos para contratação de operações. Todos têm que se conhecer, além de entenderem e incorporarem os protocolos específicos para cada produção sustentável.

Cortesia: José Ângelo, MAPA